Quinta-feira, Novembro 17, 2005

Pedestre

I

Quando a gente está triste
Nem caminhar resolve.

No meio do caminho, encasqueta
Dobra na primeira seta
E resolve cortar o cabelo.

Depois de andar o bairro inteiro
Para economizar algum dinheiro
Aquele que se chamava barbeiro
Lamenta: "fica para uma próxima vez".

Que vez ?
E desde quando eu posso prever
O próximo dia ou segundo ?

É por isso que eu me afogo num pote
De dois litros de um sorvete vagabundo
Só pra economizar um vintém

Querendo estar longe de todo mundo
Mas perto de um único alguém.

II

Quando a gente está triste
Parece que todos que passam do lado
- Na frente, atrás ou até em outro estado -
Estão olhando pra você.

É como se todos soubessem
Que um minuto atrás você tinha chorado
Na cama ou na igreja mais perto
Ou se previssem a próxima s(uc)essão
De lágrimas e de saudade.

No íntimo, a alma padece
Caminhando pela Nossa Senhora
Enviando a Nossa Senhora
Em pobres rimas de lamento
Uma derradeira prece.

No fundo, até esquece
Do quase atropelamento.

III

E a poesia nem mesmo termina
Porque nem mesmo começou.
E se você não gostou
Tome um Maracujina.

Imagina se eu vou para de (es)cr(ev)er
Ou de (ch)orar.

Imagina.

(Marcelo Batalha, 17.11.2005)